Há pouco mais de um ano eu me manifestei negativamente numa rede social sobre o discurso de valorização das tradições musicais de Ouro Preto que sustenta o “Projeto Candonguêro: era uma vez um carnaval”. Eu disse, em referência ao “Circuito do Samba” (rodas de samba com os músicos do Projeto que movimentam bares nas semanas que antecedem o carnaval), que não tinha sentido a afirmação de uma tradição legítima de samba na cidade, quando tal movimento cultural se resumia sempre às mesmas pessoas tocando as mesmas músicas nos mesmos lugares somente no período carnavalesco e a partir da criação do Projeto, ano após ano. Em troca, eu recebi uma resposta passional de um de seus criadores, me convidando abstratamente em nome da cidade a não prestigiar o evento. Mas a faca tem dois gumes. Eu explico.
Desde que surgiu há anos atrás, esse interessante projeto musical sediado na Praça Silviano Brandão, mais conhecida como Largo da Alegria, injetou vida nova nas noites de Momo da Velha Cidade, valorizando a música brasileira de qualidade em confronto com a onda idiotizante que repete sem parar, seja por meio de sonorização mecânica ou por meio de bandas de covers fajutas, os hits da axé music, do funk carioca e afins. Não tenho nada contra essas tendências, pois o carnaval é uma festa para todos e, a fim de evitar o descontentamento geral, que os organizadores municipais contratem então quem cante e dance aquilo que agita as massas. O problema dessa lógica é que, por detrás da sua aparência democrática, esconde-se uma ditadura que exclui todos aqueles que não se comprazem com aquele tipo de música e com o formato de festa que ele condiciona. Eu, por exemplo.
Sempre me senti um exilado em Ouro Preto no carnaval depois que o sol se põe. Atualmente, apesar do desaparecimento de blocos como o da Funerária, cuja concentração divertida e sem “bebida liberada” acontecia no Antônio Dias, ou da visível redução da participação de crianças nas tardes da Praça Tiradentes (o que revela certo embotamento do espírito democrático que deveria mover a festa), ainda assim permanecem de pé alguns motivos alternativos ao trinômio beber-cair-levantar para sair de casa durante o dia: o bloco Balanço da Cobra, a Bandalheira e, já à noitinha, o Zé Pereira dos Lacaios (para ficarmos apenas em três exemplos mais leves). E para quem está disposto, acredito que, para o bem e para o mal, comprar um abadá e afundar na cerveja num bloco comercial é uma boa pedida. Mas e depois? A noite sempre foi um enigma. O que fazer, quando você não tem acesso a nenhuma república de estudantes e só lhe resta vagar pelo Centro atrás de alguma diversão e álcool?
Sempre me senti um exilado em Ouro Preto no carnaval depois que o sol se põe. Atualmente, apesar do desaparecimento de blocos como o da Funerária, cuja concentração divertida e sem “bebida liberada” acontecia no Antônio Dias, ou da visível redução da participação de crianças nas tardes da Praça Tiradentes (o que revela certo embotamento do espírito democrático que deveria mover a festa), ainda assim permanecem de pé alguns motivos alternativos ao trinômio beber-cair-levantar para sair de casa durante o dia: o bloco Balanço da Cobra, a Bandalheira e, já à noitinha, o Zé Pereira dos Lacaios (para ficarmos apenas em três exemplos mais leves). E para quem está disposto, acredito que, para o bem e para o mal, comprar um abadá e afundar na cerveja num bloco comercial é uma boa pedida. Mas e depois? A noite sempre foi um enigma. O que fazer, quando você não tem acesso a nenhuma república de estudantes e só lhe resta vagar pelo Centro atrás de alguma diversão e álcool?
Eis que algo maravilhoso aconteceu, finalmente. Um grupo de instrumentistas de alta qualidade, muitos advindos do curso de Música da UFOP, liderados pelo violonista ouropretano Chiquinho de Assis, fez jus ao apelido do Largo que passou a abrigar definitivamente o Projeto Candonguêro, cujo repertório incluía canções de Chico Buarque, Cartola, Assis Valente, Jorge Ben, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Noel Rosa, dentre outros do mesmo quilate. E não pararam por aí. Havia a proposta de resgatar compositores locais.
Sempre morei no Padre Faria e ouvia em casa na voz de parentes nostálgicos os sambas que fizeram história na Escola do bairro. Eram apenas dois ou três sambas, todos da época em que não era ridículo integrar os desfiles toscos que eu tive o desprazer de ver e ouvir desde pequeno, apesar de já ter usado uma fantasia de plástico e também um terno branco na tradicional ala homenageada pelo compositor Edmundo Guedes no samba mais bonito que a Praça Tiradentes já ouviu. E foram marchas e sambas como o dele que começaram a ser divulgados também no Projeto Candonguêro, que retirou essas canções do baú afetivo dos ouropretanos e as inscreveu também na memória dos turistas que visitam a cidade no carnaval. Só aqui eles podem ouvi-las, já que não foram gravadas.
O carnaval do Rio de Janeiro, por meio dos mais diferentes blocos de rua de acesso universal espalhados por toda a cidade, defende-se da axé music com muita percussão, marchinhas, samba e, pasmem, sem o seu famoso funk. (O bloco Sargento Pimenta, por exemplo, só toca Beatles em ritmo de micareta). Recife se defende da invasão baiana e das tendências musicais estranhas às tradições carnavalescas locais de maneira genial. Preserva a força do frevo colocando-o lado a lado com nomes consagrados e revelações da MPB, do rock e da pungente cena indie pernambucana. E Ouro Preto? Por não ter nenhuma tendência musical que possa chamar de sua capaz de caracterizar o seu carnaval como um todo, está completamente vulnerável ao que lhe é externo. Mas, por outro lado, o espaço está aberto para que algo novo e diversificado possa ser construído.
Nesse sentido, o surgimento do Projeto Candonguêro foi importantíssimo. Além do seu bloco que desfila durante o dia, ele também sedimentou um passo fundamental em direção a uma nova proposta de carnaval para a noite de Ouro Preto, antes totalmente dominada pela música comercial. Seu diferencial foi justamente interpolar em seu repertório canções de compositores locais com clássicos e criações recentes da MPB. E nos primeiros anos do Projeto esta fórmula funcionou brilhantemente, com o acréscimo de elementos cênicos que homenageavam os antigos carnavais, os personagens que se tornaram folclóricos na cidade e, claro, as escolas de samba. Mas, paradoxalmente, o combustível criativo desse movimento de renovação do carnaval ouropretano foi igualmente motivo de paralisia.
Passados os primeiros anos do Projeto e a empolgação inicial que causou, ele infelizmente se transformou, a meu ver, num enfadonho déjà vu. Mesmo com o reforço revigorante da voz da cantora Sílvia Gomes, o resgate dos compositores locais se converteu, na verdade, repetição exaustiva de repertório, sem quaisquer novidades que revelassem a suposta vida da cena sambista ouropretana atual ou do passado tal como sustentam seus idealizadores, motivo daquela querela em que me envolvi. Ao contrário, evidencia que não há mais nada que preste além daquelas canções resgatadas, algumas delas nem tão boas. Se aquela vida existe, cadê? Canções belas (como o samba do Edmundo) devem mesmo ser cantadas todos os anos como documento da música de qualidade que se fez em Ouro Preto, mas que venham acompanhadas de frutos descobertos em novas pesquisas, se oportunas, ou de novas composições. O que é bom permanece naturalmente no tempo (vide o repertório dos Beatles que agita os foliões no Rio) e não há necessidade de mantê-las apenas por serem expressões da nossa terra.
Da mesma maneira, se uma canção como “Vai passar” (Chico Buarque/Francis Hime) funciona como um hino capaz de renovar o pacto de felicidade firmado anualmente sobre os paralelepípedos da Velha Cidade, ela merece figurar, pelo seu caráter simbólico, todos os anos no repertório do Projeto. Mas por que devemos ouvir também “Feijoada completa” (Chico Buarque) durante anos a fio? Por que esta e não outra dentre as inúmeras canções de Chico? Temos uma cultura musical tão prolífica que não seria difícil alterar significativamente o repertório dos shows sem sequer alterar o time de compositores neles representado. Porém, o que se canta no "Circuito do Samba" é o que se canta durante os dias de carnaval, sem alterações. De novo. Novamente. Outra vez. Por quê?
Há de se levar em consideração que não se trata de uma banda, mas de um grupo de amigos que se juntam no carnaval, com todos os problemas de tempo para ensaios que isto possa acarretar, suponho eu. Porém, eles não são músicos amadores e seu show está plenamente institucionalizado no calendário do carnaval da cidade há anos. Certa vez uma amiga perguntou para um integrante do grupo por que razão eles não mudavam o repertório ou a estrutura do show. Resposta: quem vai ao Largo da Alegria todos os anos nota as repetições, mas quem é turista e está lá pela primeira vez não. Não quero inferir aqui que este comentário representa o ponto de vista de todos que levantam anualmente o Projeto. No entanto, sinto-me desrespeitado todas as vezes em que, sem outros palcos ou atrações para prestigiar, me deparo com o fato de que os “candonguêros” parecem se perpetuar, tradicionalmente, de modo anti-criativo. (Será que devo então fazer as malas e ir pra outro lugar ano que vem, já que a festa em Ouro Preto não é feita também para mim?). Não fui no ano passado, mas isso pouco importou, pois este ano tudo fluiu como há dois anos. “Palco” (Gilberto Gil) foi inevitavelmente linkada a “Que maravilha” (Jorge Ben/Toquinho), sem surpresas. Aí você que lê isto agora pode me dizer: Os incomodados que se retirem! E os incomodados devem ser poucos, considerando o sucesso do Circuito esse ano e o Largo sempre lotado durante todos os dias. Mas não é bem assim...
Creio que minha opinião não se limita a ser apenas mais uma lamúria no bloco dos descontentes e mal-humorados. O carnaval de Ouro Preto, que possui visibilidade nacional e representa Minas Gerais nas pautas da mídia no período, é um carnaval de rua, não é feito de graça e está inserido numa rede de políticas ligadas ao fomento do turismo e do comércio na cidade e, deste modo, tem suas estruturas básicas organizadas, desenvolvidas e pagas pelo poder público. E não vem ao caso menosprezar o significado político de um projeto musical devido ao seu caráter lúdico quando foi também a visibilidade desse projeto que conduziu o músico Chiquinho de Assis à Secretaria Municipal de Turismo e Cultura. Eu, por exemplo, não sabia quem era ele até vê-lo tocar no carnaval.
Logo, minhas críticas não se dirigem à pessoa, mas à dimensão pública do artista e do político. O que me incomoda, como morador e também como “folião” que permaneceu na cidade nos últimos 15 carnavais (com uma única exceção ano passado) é até que ponto um projeto que ocupa exclusivamente o palco do Largo da Alegria há anos, do sábado à terça-feira, e que defende o ecletismo musical, a diversidade, a cultura local misturada aos cânones nacionais, e que efetivamente reconfigurou as noites de carnaval em Ouro Preto desde que foi criado, tenha se convertido justamente no oposto do que o seu discurso defende: a repetição, a continuidade tediosa do mesmo. E, ao repetir-se ciclicamente, ele começa a exemplificar o que há de pior na defesa inveterada de tradições. Nada deve mudar, porque sempre foi assim. E assim será no próximo ano. E quem se conforma a esse quadro já começa então a sambar automaticamente tal como a maioria dos católicos de nascença fazem o sinal da cruz sem saber o que este gesto significa. Mais uma vez, sinto que eu seria convidado a me retirar da festa, como bom ex-católico que sou.
Porém, antes que eu tenha que novamente atravessar a Rua São José, passar entre os gays no bar do Toffolo e desviar-me dos evangélicos na Rua das Flores, eu quero dizer apenas que sou a favor da boa música, não importa onde ela tenha sido feita ou quem a cante, desde que o faça bem. Ouvir Efigênia Carabina cantar ontem, a despeito do trabalho que ela sempre fez a favor da cultura negra na cidade, foi uma experiência , digamos, altamente penosa e isso pouco muda por ela ser ouropretana. Acredito que tão importante quanto o que se faz aqui em Ouro Preto, em termos de cultura, é o que se traz para cá de outras terras e que depois é, sem remorso nenhum, levado para longe. Foi assim com tantos artistas, quase todos “estrangeiros”, mas que se contaminaram nesse espaço urbano e natural tão particular a ponto de considerá-lo também legitimamente deles. Por que não há de ser assim também no carnaval? Precisamos é largar essa visão tola de que estamos sendo saqueados por piratas quando na verdade estamos é nos tornando mais ricos. Seria excelente se o Candonguêro repensasse a sua fórmula, ou se a própria Prefeitura, ao tecer conscientemente um conceito para os próximos carnavais (a programação de carnaval no Antônio Dias este ano já foi um sinal positivo de que há um esforço de tornar a festa plural), mirasse para além do horizonte que Ouro Preto não tem (porque as montanhas o bloqueiam) e se espelhasse em Recife, buscando novos colaboradores, novos parceiros, novos sons, ao mesmo tempo em que protege o que é nosso. E proteger o que é nosso é não nos privar do direito de sermos cosmopolitas. Essa é a verdadeira tradição ouropretana.

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